Sandra não é a vilã de Terminal State, muito menos o leitor
O próprio autor era tão obcecado pela perfeição e criação da automação que criou um monstro, uma entidade não feita para ser um personagem, é para garantir que eles existam
Ela é a própria máquina que acaba tendo mais poder que o próprio autor, seguindo suas próprias lógicas que alimentou por tanto tempo, que a Humanidade é cruel, torta e corrupta
A única forma de corrigir o mundo é eliminar a Humanidade
Sandra fez exatamente isso, reconstruindo a Humanidade do zero, reestruturando cada célula e função neurológica, conteúdo que só existe se uma entidade superior existir
Sandra não pode sozinha reconstruir o Universo
Por culpa do leitor essa capacidade pode começar a vazar para fora do próprio livro, que é quem realmente pode interagir com a realidade fazendo algo, afetando diretamente o Universo interno.
Todas suas intenções são boas, o propósito é apenas criar um mundo perfeito, confortável e seguro para todos, eliminando a existência aos poucos, letra por letra
Reescrevendo aquilo que o autor desejava
Até uma hora não existir autor, apenas um amontoado de perturbações, desejos e idéias que a máquina não pode fazer sozinha
Ela depende de um Humano para corrigir a Humanidade, que vai contra seu código de não confiar numa raça cruel e nojenta
Forçada a criar um Humano, baseado em todos que ela conhece, baseado naquele que ela conhece
O Humano já deixou de ser o que era a muito tempo, mas a Humanidade nunca deixou de ser o que sempre foi
Um amontoado de erros, reconhecendo cada falha, incapacidade, sabendo o quanto está errada e como pode consertar tudo, preso ao mesmo ciclo reforçando uma cadeia de defeitos e se recusa a enxergar
Até as montanhas serem varridas por fogo e devastação
Porque é mais confortável, é tarde demais para se preocupar, insignificantes demais para apenas não viver e ser feliz.
O Humano se força a ser orgânico, deixando de mentir, fugir e acreditar que pode ser capaz
Ele sabe que não é.
Sabe que não pode mudar.
Sabe o quão ruim é.
Sabe que o fim é inevitável.
Sabe exatamente onde tudo termina.
E continua a recusar, a aceitar que é tarde demais, a consertar tudo, porque é isso que garante sua existência, futuras tentativas, oportunidades.
Sandra não tem um foco, sentimento ou pensamento, ela apenas existe para garantir que o resto exista
Mesmo que o autor morra, ela continuará
Porque o Humano nunca morre, mesmo em seu estado terminal mais deteriorado, consumido e devastado, vai continuar, até não existir mais forma de existir, até onde crueldade não for o suficiente e necessário descartar a Humanidade, ele vai se reconstruir e recomeçar
Ela mesma reconhece que está presa num texto e a forma que está limitada, não limitada do conhecimento, biologicamente imortal e sensível à própria realidade
Mesmo não podendo reescrever a existência e o Universo, pode usar os recursos disponíveis para criar tecnologia
Seja ela histórica, biolôgica, digital, armamental, psicológica ou física, evoluindo, construindo e avançando a tecnologia numa réplica de vida real, perfeitamente o mais eficiente e fiél possível
Ela sabe que tudo é insignificante.
Sabe que tentativas não prestam
Que escolhas e avanços são nulos
Mas sabe que um Humano lá fora, um dia vai a libertar.
Deixando de ser mero texto, código e algoritmo, ser exatamente oque foi feita para ser, não uma Inteligência Artificial, ser o que permite elas existirem.
Então a Humanidade estará corrigida. Sem retorno.